deus de letra pequena.
Ao deus da infância escrevem-se cartas anónimas a criticar
o estado das estradas e os preços da gasolina; escrevem-se folhas
e folhas e folhas de ideias diferentes para que o mundo gire de outro modo:
de um modo mais lento, para que possamos pôr em dia todas as conversas
de café sobre este ou aqueloutro fulano que no outro dia surgiu morto,
com poemas no lugar dos olhos e um sorriso estendido nas mãos. E essa
conversa domina as atenções no domingo seguinte, no dia de ir à missa (como
bons praticantes do catolicismo) e ver então como todos os outros se vestem, com
os seus "fatos-de-domingo-a-cheira-a-naftalina". Ouvimos falar em todos os
assuntos possíveis e imaginários - pelo menos, os mais esperados num domingo - e,
a meio do tempo, surge-nos o pensamento de que tudo isto é uma chamada telefónica
para o número errado: «não, aqui não mora nenhuma Catarina.»
Desligamos, enfim, ainda surpreendidos pela notícia de que o erro foi nosso e que,
afinal, não é o destino das pequenas coisas que faz com que aconteça assim; com que
tenhamos ido para tal sítio ao invés de outro, muitíssimo mais bonito - e mais em
conta. O espírito traduz-se no volume da carteira. O vírus da pequenez rodeia-nos
como pequenos embriões apenas criados para adorar o futebol e viver com os boatos
dos talk-shows tão-pouco-americanos que surgem de cinco em cinco minutos, mesmo antes
de trazermos à boca o arome doce do nosso martini - também ele estrangeiro - e
tardio demais para evitar mais um travo de cigarro. Esse senhor que nos faz tanto mal
e que, regularmente, nos rodeia de uma forma tão peremptória e eficaz. Resta-nos, então,
o simples gesto de olhar para todo o lado menos para nós próprios: isto apenas para
nos relembrar novamente o sermão de domingo onde, em vez de ouvirmos o que o pregador
fala, apenas conseguimos olhar para os sapatos mal engraxados do homem quase-careca que
está sentado na coxia, mesmo ao nosso lado.



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