Menos ais.
Por vezes, as pessoas esquecem-se de que temos um país. Eles andam na rua e olham para a estrada, olham para os buracos que o asfalto tem, olham para o lixo espalhado pelo passeio e vêem as mulheres que rodeiam a sua imaginação e esquecem-se de que elas pertencem a um país. Depois, vem o futebol. É certo: atrás do futebol vêm também as cervejas, os tremoços ou os amendoins - nas horas de maior calor - mas, hoje em dia, quando se vêem bandeiras por todo o lado (nos carros, nas faces, nos corpos), não é possível não existir a pergunta: temos um país? E agora é que se lembram? Portanto, esta ideia é bastante simples: tivemos todos uma experiência enormíssima que foi dar as boas-vindas (ou os adiós! muito mais saborosos) a todos os não-portugueses que nos visitaram; soubemos falar inglês, francês, espanhol (e todos eles nos entendem muito bem) apenas para que se sentissem confortáveis, como em casa; soubemos dar-lhes o caloroso clima português e as maravilhosas refeições cheias de gordura e de calorias, para as Misses repletas de nove horas e de oito horas e afins. Passaram-se os dias e soubemos invadir o Marquês de Pombal, o Parque das Nações (nome engraçado), a Avenida da Liberdade: soubemos dizer que os corações pulsam como nunca. Mas, daí advém outra pergunta: passaram-se oitocentos e qualquer coisa anos desde que existimos; tentaram pôr-nos o cabresto e pôr-nos a dizer olé (prefiro, pessoalmente, o adiós) e agora vêmo-los comer os nossos tremoços (petisco-tipicamente-português); vêmo-los encher as nossas esplanadas a cantar em grego canções que fazem jus ao Marco Paulo (o senhor tão-português que me perdoe o eufemismo) e não os vemos dizer, humildemente, que se acham supreendidos com o facto de, apenas recentemente, termos descoberto que existe um país, que nós temos um país. Estas poucas horas que restam antes de criarmos um país passam rapidamente. Sabiam que já existia um país antes de todos andarem de bandeiras ao colo, a auto-congratularem-se por sermos os maiores quando, duas semanas antes, seu queixavam de tudo e todos? Uma bandeira é fácil comprar, agora admitir que já existia um país antes das oito da noite de hoje é que é difícil: e não se paga.



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