Que haja nevoeiro.
Hoje todos sabem que dia é. É o dia em que acordamos a tentar não pensar no dia anterior, mas neste caso, a nível nacional. Temos hoje a certeza de que somos dos melhores da Europa e as bandeiras espalhadas por todo o lado assim o provam. Resta-nos, agora, a seguinte questão: e agora? Iremos todos defraudar as bandeiras, retirá-las das suas hastes onde orgulhosamente têm estado? Pessoalmente, julgo que não. Confesso-me positivamente surpreendido com a reacção de todos os que se me depararam ontem na rua, nos cafés, nas lojas. Julguei sair de casa e ver fantasmas: apenas as aragens percorriam as ruas imensamente cheias de vácuo. Isto tudo minutos antes da triste certeza de que teríamos novamente de apertar os corações e levantar a cabeça. Mas, quando essa certeza chegou, espantou-me a imensa dignidade deste país - que, afinal, até sabem que existe. Este país, tantas vezes reconhecido por americanos-pseudo-púdicos-e-ignorantes-em-geografia como uma província de Espanha - sim, aquela mesma que, uma semana antes, enviáramos para casa com um adíos sonoro e bilhetes oferecidos pela Tap Air Portugal - ou reconhecido apenas como a cidade de onde vem o vinho do Porto - este país uniu-se durante mês e meio e foi das lágrimas até ao riso de alegria, contagiante, imenso. Espantou-me a capacidade das suas buzinas após sabermos que somos o primeiro dos últimos, o volume das suas gargantas a entoarem o nome do seu país e também a capacidade de admirar cavalos de Tróia e de não os receber orgulhosamente, mas sim com humildade. Perguntava o Ferreira Fernandes, na sua coluna no CM, «Como é que vou regressar ao Portugal do costume, o da cauda, agora que o conheci à cabeça da Europa? Como vai ser o resto da minha vida?» E, sem ele saber, já ontem (demonstrando um imenso poder de antecipação), o povo lhe respondera: nas ruas, com apitos, gritos e bandeiras ao vento. E, por tudo isto, me perguntavam: "Será que eles não sabem que perdemos?"; - "Saber sabem, mas todos esperam que amanhã esteja nevoeiro."



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