quarta-feira, julho 07, 2004

VII

Ao jantar Friedrich comia sozinho. De Verão no seu majestoso jardim, onde tinha uma mesa branca, amarelecida pelos anos e um banco corrido. Sei que já foram dois bancos corridos, no entanto, Friedrich, talvez com receio de que alguém se ocupasse de o aborrecer, retirou-o. Não sei onde está esse outro banco, nem se ainda existe, ou terá servido no Inverno para se aquecer, entre estalidos de lareira. De Inverno, como o dia de hoje é, Friedrich comia na cozinha, sempre antes de mim. Causava-me confusão que assim fosse. No início tentei organizar-me de forma a comer com ele, mas ele sugeriu-me que não o fizesse: "A minha sopa e eu, hoje, tratamos de questões para as quais não podes ainda estar alertado" ou "Este peixe não foi por nenhum de nós pescado e ele não responde se mais alguém que não o carrasco do seu corpo estiver presente". Friedrich por vezes conseguia ser assim, desagradável. Mas certamente seria também eu desagradável por lhe tentar roubar o sossego. Depois de jantar juntava-se a mim e amenizava o feito: "Não vês que não há necessidade de que comas assim tão cedo? Para mim sim, é imperial que o faça. É a lei da digestão dos velhos. És jovem, borrifa-te para leis de velhos enquanto podes". E acabava com um sorriso e uma palmadinha seca nas costas, às vezes duas.

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