sexta-feira, julho 09, 2004

Um dia destes.

Considero sempre boa ideia quando nos dá aquela vontade emergente de escrever e, depois, quando está tudo pronto, não há nada sobre o que escrever. Ou talvez haja e eu não me queira lembrar. Lembrar é simples: metemos uma palavra-chave no search engine called memória e pum: vêm logo todas as coisas relacionadas com o que procuramos (inclusive o que não queremos). É caso para dizer: as memórias são fodidas. Quem ainda não deu por si, a meio da noite, a lembrar-se de coisas estúpidas ou de coisas erradas que fez; de palavras que não disse ou que afinal disse e depois admitiu que não disse ou que não disse daquela maneira quando o devia ter sido.. enfim: nada de jeito. Existem também os fantasistas: os tais que sabem que sonham demais e depois, ao caminhar na rua, tropeçam e dizem uma asneira real: "pois, realmente dói-me mesmo! Merda!". Aqui está um breve vislumbre do quotidiano real destes seres. Mas o que interessa são as suas imagens, as que criam ou moldam ou sonham ou o raio que os parta. Voltando ao cerne da questão: dão por eles, deitadinhos na sua camita confortabilíssima, e depois imaginam tudo aquilo que não têm, como que se sonhar lhes fosse trazer algo de real - "deus quer, o homem sonha, a obra nasce." - algo assim do género. Imaginam o carro que nunca vão ter (um super-desportivo caríssimo como tudo e com todos os acessórios necessários-e-que-não-fazem-falta-nenhuma, ou seja: inúteis. Não importa, é imaginação); imaginam a mulher dos seus sonhos (alta-baixa-gorda-magra-loira-morena: há para todos os gostos); imaginam a casa que nunca vão comprar (uma vivenda imensa com cento e quarenta e dois quartos que não usam porque a garagem é mais acolhedora); ou apenas a piscina (água aquecida, trezentos metros quadrados de puro requinte, com rebordos de mármore e água importada directamente da China, por aqueles homenzinhos pequeninos de olhos em bico e que não dizem nada de jeito, aquecida precisamente a vinte-cinco graus e meio - centígrados, óbviamente). Portanto: ao imaginar tudo isto, as horas vão passando e no outro dia acordam, frescos como uma alface sevilhana, prontos para mais um dia de trabalho no seu escritório minúsculo, a ganhar pouco mais que um salário mínimo e a fazer dez horas diárias de pura-chulice (ou puramente-chulados - perdoem-me a expressão). Depois, arranjam-se todos, penteam o cabelo, lavam os dentes, tomam um pseudo-pequeno-almoço que mais parece alimento para criadores de anorexia-bulímica-junior, vestem a jaqueta comprada numa loja qualquer barata (um casaco daqueles estilo Versace ou Armani leva uma vida destas a pagar, claro) e está tudo finalmente pronto: metem-se no carro utilitário que foi escolhido carro do ano em 2002 porque era mais barato dois cêntimos e porque a distância entre eixos é reduzidíssma e consegue estacioná-lo em qualquer bolso disponível que se lhe surja, na Avenida da Liberdade. De quando em vez, levam uma multa, mas nem por isso mudam de tática: as multas um dia deixarão de surgir, o lugar extremamente-apertado-e-indispensável tornar-se-á desnecessário e quiçá trabalhar também, tudo isto porque um dia destes jogam na lotaria e acertam miraculosamente nos seis números premiados. Depois, receberão o prémio, com um desconto imenso do IRS (era demasiado bom receber tanto de uma só vez logo não ficam mal-habituados) e, no fim das contas, levam um x mais reduzido do que o esperado. E depois, quando têm a possibilidade de realizar aquelas fantasias-de-cabeceira, pensam duas vezes e tomam noção de que o objectivo era apenas sonhar com tudo aquilo porque realmente é caro demais.

Free Message Forum from Bravenet.com Free Message Forums from Bravenet.com